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時をこえ

Toki wo Koe: Uma Vida Que Atravessa o Tempo

A história real por trás de "Toki wo Koe", a canção da banda okinawana HY que liga uma avó, uma guerra, um oceano e uma neta que se recusou a deixar a memória se perder.

"Toki wo Koe" (時をこえ, "Além do Tempo") apareceu em 2010, nos álbuns Whistle e no registro ao vivo ACHI SOUND ~HY Love Summer~, da banda HY, de Okinawa. À primeira escuta é uma canção sobre gratidão aos avós. Mas por trás da melodia existe uma linha do tempo real — uma guerra, uma canção nascida de uma história de família verdadeira — que ainda hoje atravessa oceanos para alcançar quem carrega Okinawa no sangue, mesmo a milhares de quilômetros dali.

Mulher okinawana carregando gravetos na cabeça, com crianças ao redor, no campo de internamento da Baía de Oura, em Henoko, 1945.
Civis vivendo sob administração do governo militar dos EUA, em Henoko, norte da ilha principal de Okinawa — 8 de julho de 1945. Domínio público, U.S. Navy Photographs, acervo do Arquivo Prefeitural de Okinawa, via Wikimedia Commons.
1945

O tufão de aço

A letra conta, lado a lado, duas histórias reais que Izumi Nakasone ouviu dos próprios avós. Da avó: um amor que a família não permitiu, um casamento decidido para ela, e a impossibilidade de se despedir de quem ela realmente amava. Na estrofe seguinte — sobre essa mesma avó — cinzas caem como chuva, e ela corre, desesperada com a vida daquela mesma pessoa. As duas cenas vêm juntas na letra original: o casamento forçado e a fuga sob o fogo pertencem ao mesmo período de guerra, não a costumes soltos e sem relação.

Entre abril e junho de 1945, Okinawa viveu uma das batalhas mais brutais da Segunda Guerra Mundial — apelidada de "tufão de aço" pela intensidade dos bombardeios. As estimativas mais citadas apontam cerca de 150 mil civis mortos, praticamente um terço da população da época. Foi essa mesma devastação — não uma sabedoria alimentar milenar, como o marketing de bem-estar costuma sugerir — que moldou os hábitos frugais da geração retratada no post sobre a longevidade okinawana. É esse cenário concreto — não uma tradição abstrata — que a letra sugere por trás da separação da avó. Do avô, a canção guarda uma lembrança diferente: trabalhando desde os 14 anos, separado da família, sozinho, sem poder chorar para conseguir sobreviver. Duas histórias de uma mesma geração, que a neta se recusou a deixar desaparecer.

O casamento decidido pela família, sem consulta ao casal, não era exceção nem exagero poético: é documentado por pesquisa acadêmica sobre a própria comunidade okinawana no Brasil. Uma dissertação de mestrado da Universidade de Brasília registra o caso de uma avó okinawana-brasileira que se casou, ainda nos anos 1930, com um homem a quem nunca tinha sido sequer apresentada — um miai, o acordo de casamento arranjado pelos pais, comum até bem depois da imigração.

Uchinaguchi neste texto

Os princípios por trás da letra

Cinco ideias que explicam por que, em Okinawa, esquecer nunca foi uma opção — todas em uchinaguchi, a língua que dá nome a este espaço.

Yuimaru

ゆいまーる

Ajuda mútua. Ninguém enfrenta a dificuldade sozinho — vizinhos reconstroem e recomeçam juntos.

Ichariba chode

行逢りば兄弟

"Uma vez que nos encontramos, somos irmãos." Até um estranho vira família ao se cruzar com você.

Chimugukuru

ちむぐくる

Compaixão de coração aberto. Atenção genuína ao sentimento do outro, antes de tudo.

Nuchi du takara

命どぅ宝

"A vida é o tesouro." Nenhuma posse, honra ou conflito vale mais do que uma vida — o mesmo princípio que orientou o Reino de Ryukyu em 1609.

2010

Uma neta escreve uma canção

A vocalista da HY, Izumi Nakasone, cresceu ouvindo a própria avó contar essa história — o casamento, a guerra, os prantos, a sobrevivência. Quando criança, via os filmes de guerra dividirem o mundo em "inimigos" e "aliados"; a avó a corrigia: não existe inimigo ou aliado, o que importa é que todos se ajudem, porque a vida é igual para todos. Nakasone guardou essa frase por anos, esperando o momento certo para transformá-la em canção — o que ela contou, mais tarde, em entrevista ao jornal Ryukyu Shimpo.

Esse momento veio em 2010. "Toki wo Koe" não é uma composição genérica sobre "avós de Okinawa": é a biografia de uma família específica, aberta para que qualquer okinawano, em qualquer lugar do mundo, reconheça nela um pedaço da própria história. A letra pede, quase literalmente, para gravar essa memória no peito, para não deixar que mais uma lembrança se apague — e a própria canção é a prova de que Izumi levou esse pedido a sério antes mesmo de escrevê-lo.

2019

A neta atravessa o oceano

Em novembro de 2019, a HY veio ao Brasil pela primeira vez — um show único em São Paulo, no auditório do Bunkyo, para celebrar 20 anos de carreira da banda. Na bagagem, um detalhe que fechou um círculo: Izumi Nakasone visitou o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil e a Associação Okinawa Kenjin do Brasil, recebida pelo presidente da entidade.

No ensaio geral, a banda dividiu o palco com o grupo de taiko Ryukyu Koku Matsuri Daiko — o mesmo grupo que, nos festivais de cultura japonesa espalhados pelo Brasil, mantém "Toki wo Koe" viva para uma geração que nunca pisou em Okinawa. A autora da canção sobre uma avó separada pela guerra caminhou, com os próprios pés, pelo lugar que guarda a memória de milhares de outras avós — as que atravessaram o oceano rumo ao Brasil, décadas antes.

Depois

A memória continua se espalhando

Anos depois, fãs no Brasil e no Japão passaram a produzir vídeos-tributo unindo a canção a imagens reais de documentários sobre a Batalha de Okinawa — da NHK, da HBO e de outros arquivos. O gesto reforça exatamente os dois princípios que a canção carrega: nuchi du takara e kazoku no koto wo ichiban ni. A cada novo vídeo, a cada nova legenda, a memória de uma avó de Okinawa segue atravessando o tempo — e agora também as telas.

Assista: "Toki wo Koe - legendado" no YouTube.

Hoje

Toki wo koe, umi wo koe

Para quem nasceu em Okinawa, "atravessar o tempo" já é suficiente para descrever a distância entre uma avó e uma neta. Mas para quem nasceu do outro lado do Pacífico — parte de uma comunidade que já soma mais de um século de história no Brasil — essa travessia ganha uma segunda dimensão.

O mesmo inochi, a mesma vida que a canção pede para carregar com cuidado, não atravessou só décadas: atravessou também um oceano — e continua sendo passado adiante hoje, toda vez que uma associação, uma roda de sanshin ou uma conversa em família mantém viva uma palavra em uchinaguchi.

時をこえ、海をこえ。

Atravessar o tempo, atravessar o mar — e ainda assim, chegar.

Fontes

Bibliografia

  1. Ryukyu Shimpo. HY仲宗根泉さん「命は一人のものじゃない」歌い継ぐ祖母の戦争体験と"命のリレー". ryukyushimpo.jp
  2. J-CAST Trend. HY、原点を見失わない どこかほっとする希望の見えかた (cita as notas do álbum escritas por Shinsuke Kyoda). j-cast.com
  3. Uta-Net. 時をこえ — letra completa. uta-net.com
  4. J-Lyric.net. 時をこえ — letra completa. j-lyric.net
  5. Revista Mundo OK. Banda HY: de Okinawa para o mundo. mundook.com.br
  6. Yomitai — Estação Multimídia. Banda HY estreia no Brasil com performance de alto nível. yomitai.com.br
  7. VISIT OKINAWA JAPAN (turismo oficial de Okinawa). Shimakutuba (Ryukyuan Languages). visitokinawajapan.com
  8. Evertrail Tours. Okinawan People & Culture: The Ryukyu Spirit. evertrailtours.jp
  9. Petrucci-Rosa & Miyahira. One Okinawan community's efforts to maintain cultural identity, Romanitas. romanitas.uprrp.edu
  10. Vídeo: Toki wo Koe - legendado, com imagens de documentários da NHK e da HBO sobre a Batalha de Okinawa. youtube.com
  11. Wikipédia. Ryukyuanos. pt.wikipedia.org
  12. Souza, Yoko Nitahara. A comunidade uchinanchu na era da globalização: contrastando "okinawanos" e "japoneses". Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2009. dan2.unb.br